Do outro lado do Atlântico Sempre que recuo quatro anos no tempo dou por mim a rever todo o erotismo que me fez apaixonar pelo Br...

Países irmãos de um continente dividido

domingo, março 19, 2017 MeiaLeca 0 Comments



Do outro lado do Atlântico


Sempre que recuo quatro anos no tempo dou por mim a rever todo o erotismo que me fez apaixonar pelo Brasil. Um ano que ficou, sem dúvida alguma, marcado para sempre na minha vida! Uma experiência que vou querer que os meus filhos a tenham e que estou muito grata aos meus pais por me terem conseguido proporcionar.

Estava no segundo ano da faculdade quando decidi embarcar em mais um aventura: fazer intercâmbio no Brasil numa faculdade de Publicidade em Florianópolis. Mas o que seriam apenas seis meses de estadia se estenderam em mais seis. Um ano no Brasil, nada mal. Não me arrependo até hoje! Rumei até à terra dos “manezinhos da ilha” com mais uma colega da minha faculdade em Portugal. Fui com medo - afinal, além de todas as coisas boas que ouvia falar do nosso país irmão, também eram muitas as notícias ligadas ao crime e violência - mas fui.

Os primeiros três meses foram bastante complicados. Um oceano a separar toda a segurança e conforto a que estava habituada. Estava acompanhada, mas vi-me muitas vezes sozinha. No entanto, isso rapidamente mudou. Para começar, nunca gostei tanto de ir à faculdade como no Brasil. Enquanto em Portugal eu era quase que obrigada a “estudar” 200 páginas para uma frequência, no Brasil eles davam muito mais importância à parte prática. Ainda me lembro quando cheguei à faculdade no dia da minha primeira prova. Eu e a M estávamos carregadas de folhas com os nossos estimados, e extensos, resumos. Um colega nosso ficou vesgo de tão chocadíssimo (com muito íssimo no chocado) quando nos viu com aquilo tudo na mão. E com razão!

Descobri que os brasileiros são muito mais diretos e práticos. E por isso eu achar que eles são um povo super descontraído e com um poder de desenrasque brutal! Não é por acaso que 90 % dos meus colegas, que estavam a frequentar o 1º ano da faculdade na altura, já trabalhavam, ou já tinham tido alguma experiência na área.



E a culpa é de quem? DAS TELENOVELAS!!!


Outra das coisas que me pôs as orelhas bem atentas foi a diferença no vocabulário. Duas línguas “prenhas” no mesmo berço, mas tão diferentes. Bota cultura nisso! Pode ser que, para muitos, a nossa língua de Camões pareça dura e aveludada (na boca) ao lado do timbre musical do português brasileiro. Dá até vontade de dançar com a musicalidade graciosa de cada palavra que eles dizem! Às vezes dava por mim a fazer a minha aldrabada pronúncia “Herbert Richers”! E a culpa é de quem? DAS TELENOVELAS!!! Portugal consome telenovelas brasileiras há muitos anos. E, por isso, estejamos mais habituados à forma como os brasileiros fazem uso da língua portuguesa. No entanto, seja o português de Portugal ou o português do Brasil, não há dúvidas que é a língua mais linda do mundo!!! Bom, mas nem tudo são flores... e há muitas palavras que não entendemos e outras que se usarmos podem gerar situações BEM constrangedoras…

Ora pois, uma língua bem brasileira!


Não há nenhum turista, quer brasileiro quer português, que ao visitar o país irmão já não se tenha enrolado com as gírias para lá de diferentes. E para que os deslizes não aconteçam e para evitar uma “saia justa” (🇵🇹 situação embaraçosa), vou já esclarecer isso!

Quando quiserem chamar uma criança no Brasil, nunca a tratem por 🇵🇹 puto. Puto para os brasileiros significa alguém muito 🇧🇷 aborrecido ou que está furioso com alguma coisa. Agora, para os homens que não perdem uma oportunidade para mandar um 🇵🇹 piropo (🇧🇷 cantada) a uma mulher, não vale a pena dizerem que ela é gira. 🇵🇹 Gira é simplesmente o mesmo que 🇧🇷 girar = ela vai dar voltas e voltas e continuará sem perceber patavina do que disseram! Isto para não falar na 🇧🇷 furada clássica de chamar uma “mulher nova” de rapariga. QUERIDOS E QUERIDAS, 🇵🇹 rapariga no Brasil é = a 🇧🇷 prostituta (esta aconteceu-me várias vezes durante o meu intercâmbio em Florianópolis). Perceberam logo que eu era portuguesa! Se a fome apertar, não adianta pedirem uma 🇵🇹 sandes para o lanche que vão mandar-vos dar uma volta. Peçam antes um 🇧🇷 sanduíche! Ah, e é claro, não se esqueçam de andarem sempre com a vossa 🇧🇷 carteira de identidade. Por que o 🇵🇹 bilhete de identidade só mesmo em Portugal. 😝

Mas as dicas também estão de pé para os nossos irmãos brasileiros que não querem cometer uma 🇵🇹gafe (🇧🇷 besteira) na nossa terrinha. Dizerem que têm um “BROCHE da sorte?”, nunca por favor! 🇵🇹 Broche em Portugal significa 🇧🇷 boquete. Além disso, o elétrico em Lisboa não custa três 🇧🇷 pila. AHAHAH 🇵🇹 Pila para os portugas é = a 🇧🇷 pica. Se apertar aquela sede de beber uma 🇧🇷 gelada antes de irem para a 🇵🇹 coboiada (🇧🇷 farra), peçam uma 🇵🇹 imperial (🇧🇷 chop) - senão 🇵🇹 vai dar para o torto (🇧🇷 dar errado)! Para os forretas (🇧🇷 pão dura) que preferem o mais baratinho da 🇵🇹 ementa (🇧🇷 cardápio) para o 🇵🇹 pequeno-almoço (🇧🇷 café da manhã), peçam um 🇵🇹 galão (🇧🇷 pingado).


Gostaram das dicas? Deixo-vos uma pequena listinha com mais alguns exemplos:



🇵🇹 Zaragata - 🇧🇷 confusão
🇵🇹 Casaco - 🇧🇷 paletó
🇵🇹 Grainha - 🇧🇷 semente de uva
🇵🇹 Gelado - 🇧🇷 sorvete
🇵🇹 Genica - 🇧🇷 energia, força
🇵🇹 Gozar - 🇧🇷 tirar sarro de alguém/algo
🇵🇹 Gramar - 🇧🇷 ter que aturar alguém/algo
🇵🇹 Fiambre - 🇧🇷 presunto cozido
🇵🇹 Feitio - 🇧🇷 jeito, gênio
🇵🇹 Fecho - 🇧🇷 zíper
🇵🇹 Fala barato - 🇧🇷 tagarela
🇵🇹 Estafado - 🇧🇷 cansado
🇵🇹 Ecrã - 🇧🇷 tela
🇵🇹 Chupa-chupa - 🇧🇷 picolé, pirulito
🇵🇹 Chulo - 🇧🇷 gigolô
🇵🇹 Casa de banho - 🇧🇷 banheiro
🇵🇹 Duche - 🇧🇷 banho
🇵🇹 Sumo - 🇧🇷 suco
🇵🇹 Palhinha - 🇧🇷 canudo

O abraço das duas línguas irmãs de um continente dividido


Tanta coisa diferente, não é mesmo? Mas é com a força da simpatia, o diálogo e intercâmbio de culturas que descobri, ao longo destes anos, que somos muito mais parecidos e menos distantes do que imaginamos. Somos juntos. Apenas estamos separados pelo Oceano Atlântico.

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